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Eros e psiquê: a sexualidade na poesia pessoana

Itamar Santos *

Eros e Psique Fernando Pessoa

Conta a lenda que dormia Uma Princesa encantada A quem só despertaria Um infante, que viria De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado, Vencer o mal e o bem, Antes que, já libertado, Deixasse o caminho errado. Por o que a Princesa vem.

A Princesa Adormecida, Se espera, dormindo espera. Sonha em morte a sua vida, E torna-lhe a fronte esquecida, Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado, Sem saber que intuito tem, Rompe o caminho fadado Ele dela é ignorado. Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino Ela dormindo encantada, Ele buscando sem tino Pelo processo divino Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro Indo pela estrada fora, E falso, ele vem seguro, E, vencendo estrada e muro, Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera, À cabeça, em maresia, Ergue a mão, e encontra hera, E vê que ele mesmo era A Princesa que dormia.

Algumas explicações preliminares

Nossa análise se fixará na intenção submersa no discurso e, em menor grau, nos elementos estruturais da linguagem poética. O que nos levou a definir tal forma de análise foi a necessidade de intelecção com o poema de Pessoa. “Assim, os procedimentos buscam suas matérias, cujo resultado é a forma literária. Com isso elimina-se a ideia de que as matérias podem ser incluídas ou excluídas de um texto, como se fossem o conteúdo de uma garrafa. Conforme essa visão, a literatura nunca é sobre coisas ou situações. Será sempre o resultado da adequação entre procedimento e matéria.” (Teixeira, Ivan. Anatomia do crítico p.18).”

Em suas lúcidas observações, Teixeira nos apresenta a matéria que buscamos como estudo, a chave de leitura para o poema de Pessoa, que para nós é o tema que envolve a sexualidade humana. O que teria levado o autor a tratar desse assunto? E como proceder ou ajustar uma temática tão complexa num momento de extremo rigor moral como o período em que o poema foi escrito.

Por vezes, sabemos os exatos limites que estão circunscritos ao nosso tempo ou no contexto em que vivemos. Já a arte desconhece tais limites, tendo toda liberdade de adentrar, de ultrapassar as muralhas que buscamos destruir com as forças de que dispomos. E ao mencionarmos a palavra força, nos referimos à enorme vontade, ao desejo de mudança, de eliminação dos destrutivos limites, de romper muralhas que são tão habilmente construídas e muito solidificadas pelo nosso próprio juízo de valores. Empregamos aqui o termo muralha metaforicamente, como sinônimo de um juízo de valores inimputável, que nos deixa destituídos de senso humanitário, pequenos , impotentes.

O artista, com sua potência criadora, no entanto, mostra-se por inteiro, expõe todo o seu olhar sobre a complexidade humana. E dialoga
com valores retrógrados, violentos, egoístas, preconceituosos arraigados na sociedade. Dialoga também com seus próprios discursos retóricos, numa repetição de incongruências, num imaturo e enviesado olhar para o outro e o todo da existência humana.

Tentaremos numa visão panóptica desvendar um pouco do processo cognitivo autor, obra e receptor. Não pretendemos medir o quanto a obra incorpora da vivência do seu autor. Como explicar, assim, a relação autor – obra – receptor? E o que define a estética do poema, ou seja, o que o torna inovador, original, imprevisível? A estética de uma obra estaria vinculada à ideologia do espaço onde é criada?

Como definir o jogo verbalístico do poema? Esclarecemos que nossa análise não se pretende conclusiva. Esperamos tão somente instigar o leitor a repensar, instigando-o a sentir, a compor, a situar-se numa releitura com muitos significados e orientadora para novas possibilidades de leitura da obra pessoana .

Autor – obra – receptor

Ao tentarmos entender a relação autor – obra – receptor devemos considerar que não há como entender tal relação sem olhar atentamente para a teoria ou estética da recepção. É este o instrumento analítico da teoria literária ou mesmo da literatura comparada.

A teoria da recepção surgiu na Alemanha, no século XX, por volta dos anos sessenta, trazendo novos caminhos e questionamentos para a teoria literária.

Robson Tinoco, em sua obra Leitor real e teoria da recepção – travessias contemporâneas traça belo painel conceitual a respeito do tema, começando pelo conceito de recepção: “O conceito de recepção é o de apreensão histórica possibilitada por uma obra em dada época, espaço, momento social de seu aparecimento. Em certo sentido, dá conta de sua possibilidade dialógica, condição estética que pode ser verificada por sua capacidade de estabelecer comunicação e senso de prazer com o público leitor.” (Tinoco, Robson C.; p. 14).

Entendemos por possibilidade dialógica um conjunto de elementos, de “...acontecimentos e obras passadas que sob a perspectiva do leitor contemporâneo ainda repercutem os efeitos dos movimentos socioculturais daquelas épocas.” (Tinoco, Robson C.; p. 14).

Não precisamos de muito esforço para nos situarmos nos primórdios do Modernismo português, quando Pessoa escreveu Eros e Psique. A Europa vivia a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Portugal, em particular, vivia também uma séria crise de sua monarquia e uma crise econômica séria. No poema de Pessoa há uma coragem e ousadia que surpreendem, inovam e ampliam visões. E é o leitor quem dá continuidade à surpresa, pois ele se surpreende com o inesperado e prossegue surpreendido durante toda sua leitura e também depois de seu término. E a surpresa se estabelece em decorrência do novo. E ao final desse processo tudo se amplia. As ideias, os questionamentos, as dúvidas, as certezas, enfim, o olhar não permanece o mesmo após ê-lo. Tinoco, ao teorizar sobre a teoria da recepção menciona o pensamento de Hans Robert Jauss: “Jaus considera que nenhum outro texto como o literário propiciaria a completa manifestação desse processo libertador. Para ele, a literatura tende a realizar seu papel social porque possibilita um tipo de ‘leitura de rompimento’ com o cotidiano das pessoas. Nesse sentido, tal leitura revela as possibilidades de situações, ações, tempos, mundos que são novidades para o leitor, ao mesmo tempo em que ampliam o conhecimento de seu próprio mundo ordinário.” (Tinoco, Robson C.; Leitor real e teoria da recepção – travessias contemporâneas; p. 17).

É fascinante percebermos as várias possibilidades de leitura que um texto pode nos oferecer. Como já mencionamos, nosso olhar fixou-se na questão da sexualidade e foi dela que partimos para analisar o poema. E o que nos levou a ter este olhar? O que nos faz enxergar as várias possibilidades? Respondemos que a observação de vários caminhos nos é revelado sempre pela informação, que é, por sua vez, composta por uma série de dados. Em Eros e Psique, os dados são o infante que procura pela princesa adormecida, só que ao encontrá-la descobre que ele próprio é a princesa. Portanto nos é informado que ele era ela, entrando, então, no campo da homossexualidade. Na quarta estrofe do poema temos:

Longe o Infante, esforçado, Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado. Ele dela é ignorado. Ela para ele é ninguém.

Podemos dizer que o filho do rei luta bravamente tentando descobrir que caminho seguir. Vive numa grande indefinição, não sabe qual é o seu propósito, sua intenção. E para romper a dúvida com relação à sua sexualidade, pois percebe que não sabe se é ele ou ela, masculino ou feminino. É a vivência de uma transição. Transição que tem como escopo possibilidades de escolhas. Acreditamos que para todo homossexual existe, de fato, o momento da incerteza. Quem sou? E quando descubro o que sou, tenho certeza de que estou errado. Alguns permanecem com esta certeza. Outros com a certeza de não haver erro, embora vivendo sua condição buscando por respostas.

Como descobrir a origem de um desejo incomum para a maioria? E é nessa incerteza, nessa idiossincrasia que o elemento humano diríamos “diferente” percorre o mundo real, vivendo o jogo dramático da vida. E ao usarmos a expressão jogo dramático, vale lembrar o pensamento de Huizinga: “Só o drama, devido a seu caráter intrinsecamente funcional e devido ao fato de constituir uma ação, continua permanentemente ligado ao jogo. A própria linguagem reflete este laço indissolúvel, sobretudo o latim e línguas aparentadas, e também as germânicas. Nessas línguas o drama é chamado ‘jogo’, e interpretá-lo é ‘jogar’.” (Huizinga, Johan; Homo Ludens; p. 159).

Concluímos que a vida e a poesia participam do jogo mencionado por Huizinga, que tem como função a representação, o lúdico. “Em qualquer civilização viva e florescente, sobretudo nas culturas arcaicas, a poesia desempenha uma função vital que é social e litúrgica ao mesmo tempo.”( Huizinga, Johan; Homo Ludens; p. 134). Destacamos na função vital e até litúrgica as relações humanas que se processam com intensa complexidade. E que são traduzidas, reinterpretadas, reveladas num constante processo de indentidade e identificação. E como traduzir os anseios e desejos humanos?

É Nelly Novaes Coelho quem transcreve o pensamento de Adélia Prado, referindo-se à poesia como algo que “...transmite novas energias à palavra,...” (Coelho, Nelly N. Literatura e Linguagem; p. 61). Eros & psique contribui para ta afirmação, porquanto as palavras do poema nos contemplam com intensa energia.


A estética do poema

A maneira que o Pessoa escolheu para escrever o poema obedeceu regras formais da língua. Foi necessário um contexto estrutural para a construção de sua obra, de elementos sintáticos que a fizessem entendida. Entramos, então, no campo da lingüística e conforme Bentes e Mussalim definem, sintaxe é: “Do grego syntaxis (ordem, disposição), o termo sintaxe tradicionalmente remete à parte da gramática dedicada a descrição do modo como as palavras são combinadas para compor sentenças, sendo essa a descrição organizada sob a forma de regras.” ( Mussalim, Fernanda e Bentes, Anna Christina; Introdução à Lingüística; p. 206).

Temos assim elementos que se somam a outros e juntos definem um estilo, no caso do poema de Pessoa, o estilo, a estética modernista e podemos notar que apesar romper com o tradicional, Pessoa mantém a norma culta na sua escrita. Sabemos que a língua evolui constantemente e que os compêndios gramaticais foram se moldando, se ajustando de acordo ao tempo e ao espaço. Sabemos ainda que as origens dos compêndios está na Antiguidade Clássica, nas línguas grega e latina.

Aos escritores é essencial construir sua obra vestindo-se da roupagem da língua culta. Não há de nossa parte a intenção de estabelecer critério ou julgamento referente à qualidade da obra ou mesmo atribuir valores. Como já dissemos, nossa intenção é de precisar elementos que contribuam para estabelecer uma maior compreensão do que seja a estética na poesia, em especial no poema de Pessoa por nós escolhido para a presente análise.

Ao ressaltarmos o conceito de norma culta de Mussalin e Bentes, lemos que “É preciso ressaltar ainda que nossas gramáticas se mostram, por vezes, distantes da realidade linguística, porque seu objetivo não é, em geral, descrever a língua em toda a sua complexidade. Elas pretendem apresentar as regras que caracterizam uma das modalidades da língua – a norma culta, ou seja, aquela variedade utilizada em contextos de maior formalidade, que é principalmente escrita e que, na visão tradicional, corresponde à manifestação mais ‘correta da língua’.” (Mussalin, Fernanda e Bentes, Anna Christina; Introdução à Lingüística; p. 209).

Razoável parece-nos dizer que “Eros e Psique” apresenta um estilo de expressão e análise da alma como objeto único. E o instrumento que analisa a alma podemos definir como emoção. E é através ds emoção que
podemos atingir e corroborar um estado de alma que pode ser de alegria, tristeza, euforia ou angustia. Talvez, a emoção nos faculte o entendimento do seja estética nesse poema, dividido em sete estrofes de redondilha. É possível contestar a ideia de que para percebermos a estética seja necessário uma compreensão analítica e discursiva. E cabe aqui citar o teórico da arte Harold Osborne que cita o pensamento de outro importante teórico da área, Hutcheson: “Hutcheson foi mais adiante e distinguiu eloquentemente a percepção estética da compreensão analítica e discursiva, que pertence à observação científica e ao raciocínio teórico.” ( Osborne, Harold; Estética e Teoria da Arte; p. 138).

Para estudarmos esteticamente uma obra nosso olhar deve estar atento a um procedimento menos racionalista. São muitas as situações em que estamos mais atentos às qualidades ou mesmo à beleza do que vemos, assistimos ou lemos. E ao nos referirmos à qualidade, convém considerarmos outra obra de grande importância para o assunto, a Dialética da natureza, de Engels, lembrada por Teixeira Coelho em seu livro Semiótica, Informação e Comunicação: “Para Engels, na natureza as mudanças qualitativas só podem ser realizadas através de um processo de acréscimo ou subtração quantitativa. Afirma ser impossível modificar a qualidade de um corpo sem provocar uma mudança quantitativa desse mesmo corpo.” (Netto, J.Teixeira Coelho; Semiótica, Informação e Comunicação; p. 178). Seguindo este raciocínio, entendemos que uma obra ao despertar emoção nos distanciará do mundo real e nos trará uma certa inquietação. Pessoa é preciso na quantidade de elementos lingüísticos em sua obra, não há excessos ou acréscimos em demasia. Percebemos uma relação sintagmática em Eros & Psique, assim admitimos a ideia de beleza atrelada à qualidade da obra.

Retomando a investigação do raciocínio teórico, notamos uma necessidade de complementação entre sentido e raciocínio. O que queremos dizer é que o raciocínio deve aproximar-se do sentido, complementando-o e se ajustando à experiência dos sentidos, porém jamais se sobrepondo a esta dialética simbiótica, híbrida. Se ocorrer o contrário, ou seja, se o raciocínio interferir nesse processo, ocorrerá um distanciamento da obra em si.

Mais uma vez recorremos a Teixeira Coelho para corroborar o nosso pensamento: “O fenomeno estético deve ser antes de mais nada recortado no campo das experiências sensoriais. A inclusão da ordem racional no processo de recepção de uma informação estética – e mesmo a tentativa de fazer com que essa ordem substitua inteiramente a ordem estética – não
apenas é eventualmente dispensável como frequentemente põe tudo a perder ao tentar definir (cercear) o sistema de signos totalmente estranho ao primeiro .” (Netto, J.Teixeira Coelho; Semiótica, Informação e Comunicação; p. 179).

Em Eros e Psique o raciocínio não tem como mediar a experiência e recepção a não ser como complemento. Começamos sentindo uma inquietação diante do grande enigma, que insiste e permanece no espectro da vida humana. A nosso ver, ao iniciarmos o nosso processo de deleite, o que ocorre quando observamos uma obra de arte, assistimos a um espetáculo teatral, ouvimos uma música ou lemos um livro, temos necessidade de gradativamente substituir a razão pelo sentimento. No final do século XVII, começou-se a perceber a importância da emoção e do sentimento no tocante à contemplação de uma obra de arte. É novamente Osborne quem observa: “Termos como ‘sentimento’, ‘emoção’, ‘impressão’, ‘imaginação’, ‘sensibilidade’, passaram a ser as novas deixas numa tendência para afirmar o princípio fundamental da resposta individual contra a autoridade da razão e da regra.(Osborne, Harold; Estética e Teoria da Arte; p. 146).

No contexto de sentimento e beleza, Hume, em seu ensaio Of the Standard of Taste, que Osborne menciona em Estética e Teoria da Arte diz: “O menor obstáculo externo a estas molazinhas, ou o menor distúrbio interno, lhes perturba o movimento e atrapalha as operações de toda a máquina. Quando quisermos fazer uma experiência dessa natureza e experimentar a força de qualquer beleza ou deformidade, precisaremos escolher com cuidado o momento e o lugar adequados e deixar a fantasia em situação e disposição favoráveis. Uma perfeita serenidade de espírito, um recolhimento do pensamento, uma devida atenção ao assunto; em faltando qualquer uma dessas circuntâncias, o nosso experimento será falaz e não poderemos ajuizar da beleza católica e universal.” (Osborne, Harold; Estética e Teoria da Arte; p. 139). Esse desprendimento necessário permitirá uma leitura onde haverá uma relação mais essencial com a obra, menos superficial, um impulso cognitivo que se instala no receptor e este, por sua vez, expande o seu olhar, aproxima-se da obra sem receio de não apreciá-la, de não haver uma correspondência ou expectativa. Eros & Psique reputa os sentidos, ao lê-lo tomamos consciência da mensagem em sua totalidade.

Acreditamos que a estética exige uma mensagem não fragmentada e quando fazemos uso do termo fragmentada entendemos que não há espaços salutares na mensagem onde o interesse pela intenção maior do poema não seja a ideia de liberdade do pensamento, que pode ser também liberdade de sonhar. Podemos pensar sonhando. Podemos criar um mundo
poético em que tudo é possível. Podemos ser ele quando somos ela no mundo “real”, ou vice versa. Há uma contemplação que se intensifica à medida que nos deixamos enredar no sonho do personagem. Essa contemplação é também um elemento da estética.

Os conceitos da estética se manifestam no comportamento, nos estilos artísticos, numa constante originalidade que acaba por definir o caráter da obra de arte. Conceitos que se mostram fiéis e eficazes na análise e na teoria no campo semântico da natureza estética.


Projeto estético – projeto ideológico


Definiremos o projeto estético e o projeto ideológico da mesma maneira dialética utilizada por João Luiz Lafetá ao analisar o Modernismo brasileiro: “O exame de um movimento artístico deverá buscar a complementaridade desses dois aspectos, mas deverá também descobrir os pontos de atrito e tensão existentes entre eles. Sob esse prisma, podemos examinar o Modernismo brasileiro em uma das linhas de sua evolução, distinguindo o seu projeto estético (renovação dos meios, ruptura da linguagem tradicional) do seu projeto ideológico (consciência do país, desejo e busca de uma expressão artística nacional, caráter de classe de suas atitudes e produções.” (Lafetá, José Luiz; A Dimensão da Noite; p. 57).

Eros e Psique, como já o dissemos, surgiu num conturbado período em Portugal, num período de transformação com a crise da monarquia que se inicia em 1870. O Partido Republicano e Socialista começam a se organizar, o domínio inglês se expande pela África e uma crise financeira que afetava toda a Europa e mais ainda Portugal, que acumulava o problema com a monarquia desacreditada e o chamado Ultimato Inglês. A proclamação da República aconteceria em 1915. Um governo de direita assume o poder em 1926 e Portugal vive sob uma ditadura de tendências fascistas, até 1974.

Sabemos que a produção de Fernando Pessoa foi intensa e extremamente significativa. Suas primeiras publicações têm inicio em 1910. A heteronímia em sua obra surpreende e intriga o leitor. Existia por parte do autor uma preocupação considerável com relação aos heterônimos. Cada poeta criado por ele tinha “uma biografia, caracteres físicos, traços de personalidade, formação cultural, profissão, ideologia.” ( Infante, José de Nicola Ulisses; Como Ler Fernando Pessoa; p. 19). A estética no poema de Fernando Pessoa traz a
surpresa, nos conecta com o inimaginável. Quando na primeira linha do quinto verso aparece: “Mas cada um cumpre o Destino”, o poeta parece expressar o sentido maior da estética em sua poesia. O sentimento de angústia e revolta muitas vezes acompanha este “cumprir de um destino”, mesmo buscando caminhos, como no verso “Ele buscando sem tino”, na tentativa de alcançar respostas ou soluções para as questões que tanto afligem o ser humano.

Em nossa análise focamos o drama da identidade. E Umberto Eco nos torna capazes de compreender o que é ideologia quando observa: “Ideologia é o universo do saber de destinatário e do grupo a que pertence, os seus sistemas de expectativas psicológicas, suas atitudes mentais, a experiência por ele adquirida, os seus princípios morais (diríamos a sua ‘cultura’, no sentido antropológico do termo, se da cultura assim entendida não fizessem parte também os sistemas retóricos). (Eco, Umberto; A Estrutura Ausente; p. 84).

Poderíamos dizer que no poema pessoano o projeto estético está atrelado ao período de execução da obra, pois Eros & Psique foi gerado num momento bastante conturbado, mas, também, não nos esqueçamos dos valores essenciais da estética modernista, à qual filiou-se Fernando Pessoa desde o início de sua trajetória como escritor. Uma estética que exigia uma ruptura do tradicional, que exigia mudanças radicais.

Jogo verbalístico


O jogo verbalístico traduz intensamente a voz do personagem através de elementos lingüísticos como o eufemismo, o ritmo, a metáfora e a antítese.

Meillet, citado por Nelly Novaes Coelho, nos esclarece a importância e o significado do verbo: “Meillet define o verbo como a classe que indica os processos, quer se trate de ações, estados ou passagens de uma situação a outra. O verbo é das partes mais ricas em variações de forma ou acidentes gramaticais, mudando de forma para exprimir cinco ideias: voz, modo, tempo, número e pessoa. Além dessas cinco ideias básicas a significação do verbo pode ser alterada por certas circunstâncias – lugar, modo, tempo, negação, dúvida e intensidade. Elas são expressas pelos advérbios (ou locuções adverbiais).” (Coelho, Nelly N.; Literatura e Linguagem; p. 103).

Acreditamos que o verbo materializa e desenvolve a essência do poema de Pessoa ora em foco. Ele dá forma ao pensamento e acrescido de uma intrigante linguagem poética se intensifica, aprofunda, convoca.

No poema de Pessoa o jogo verbalístico acaba por definir a intencionalidade: “dormia”, “tentado”, “tinha”, “vencer”, “libertado”, “deixasse”, “vem”, “espera”, “sonha”, “rompe”, “cumpre”, “buscando”, “faz” são alguns exemplos de tempos verbais que traçam um caminho transformador.

Iniciando numa atmosfera de dúvidas determinada pelo tempo verbal, o pretérito perfeito composto: “Ele tinha tentado”, de modo a demonstrar incerteza. E logo adiante :“E vê que ele mesmo era a Princesa que dormia”, fazendo com que o tempo verbal se encarregue de esclarecer qualquer dúvida.

Deparamo-nos, portanto, com a diluição do incerto, numa dialética de transformação de correntes de pensamentos opostos. Necessário definir o verbo como função essencial no poema, como jogo gerador de sentidos.


Estética e ideologia



Interessante observarmos o que diz outro importante crítico, Hans Robert Jauss sobre o que chama de função contemporânea pós-moderna da estética da recepção, nas palavras de Robson Tinoco. “Para tanto, considera essa teoria/estética, seguindo conceito de Hans Robert Jauss, com destacado sentido de emancipação que permite ao leitor, atento e crítico – aqui leitor real -, reconhecer seus conceitos (sobre leitura, sobre literatura) e modificá-los com o intuito de aprimorar suas próprias informações. Entenda-se que por meio de tal processo emancipatório, esse leitor real tende a se perceber como indivíduo social que, por força de sua cultura, submete-se a determinados conceitos, valores, regras.”(Tinoco, Robson C.; Leitor Real e Teoria da Recepção – Travessias Contemporâneas; p. 19).

Tal processo emancipatório, que faz o leitor real “perceber como indivíduo social que, por força de sua cultura, submete-se a determinados
conceitos, valores, regras.”, remete-nos ao início do governo republicano em Portugal, à disputa pela colônias africanas. Caberia, quem sabe, uma pretenciosa análise desse ser considerado diferente, no caso o homossexual, numa cultura onde conceitos contrários à sua condição lhe são impostas como forma correta de existir. E quando nos referimos à forma preferimos a definição dada pela semiótica. “...entendendo-se por forma não uma mas um conjunto de mensagens relacionadas entre si e formando um texto único. Uma forma pode ser constituída por uma única mensagem mas na prática comunicativa é mais comum a ocorrência de formas compostas por mais de uma mensagem, intencionalmente ou não, como se verá mais adiante...forma pressupõe alguma ordenação,”( Netto, J.Teixeira Coelho; Semiótica, informação e Comunicação; p. 152). Em nosso caso, o conjunto de mensagens que darão a forma – como definição de conceitos – temos a religião com suas normas sociais, assim como a mídia, a política, a escola e os grupos sociais distintos.

No contexto sexual, a sociedade é regida por um espectro regulador ou com determinantes das normas a serem obedecidas, de modo a consolidar como normais padrões únicos para os gêneros masculino e feminino. Qualquer posição contrária aos paradigmas estabelecidos terá como resultado estranheza, tensão e rejeição.

Ao tratarmos de estética e da ideologia devemos ter em mente que ambas devem ser compreendidas como instrumentos de análise do movimento literário. Lafetá nos diz que: “O exame de um movimento artístico deverá buscar a complementaridade desses dois aspectos, mas deverá também descobrir os ponto de atrito e tensão existentes entre eles. Sob esse prisma, podemos examinar o Modernismo brasileiro em uma das linhas de sua evolução, distinguindo o seu projeto estético (renovação dos meios, ruptura da linguagem tradicional) do seu projeto ideológico (consciência do país, desejo e busca de uma expressão artística nacional, caráter de classe de suas atitudes e produções.”(Lafetá, João Luiz; A Dimensão da Noite; p. 57).

Embora a afirmação refira-se ao Modernismo brasileiro, existe similaridade com o Modernismo português, principalmente no que diz respeito ao rompimento com o passado. Mesmo em se tratando de literaturas e perspectivas históricas e sociais diferentes, ocorrem situações que em muitos sentidos as aproxima.

O Modernismo português talvez tenha sido o ponto de encontro entre a estética e a ideologia. Pois havia a ânsia pelo moderno, pela mudança. Eros & Psique reflete tal necessidade de mudança. Havia um comprometimento sócio-cultural para esta nova realidade no verso: “E, se bem que seja obscuro”, ficando-nos evidente a presença da dúvida, pois sabemos que toda transição gera dúvida e pode ser ameaça, perigo.

Pessoa aponta para uma transição importantíssima na literatura portuguesa. É um marco no Modernismo português a publicação da revista Orpheu, na qual ele, Almada Negreiros e Mário de Sá-Carneiro tomam para si a empreitada de difundir a arte moderna em terras lusitanas. A revista não obteve sucesso, a poesia complexa numa linguagem nova impedia sua compreensão pelo grande público.

Havia no período o risco de Portugal perder as colônias africanas para os ingleses. E Eros & Psique metafisicamente apresenta o início de transição estética na literatura portuguesa, assim como o drama psicológico da homossexualidade e da ideologia numa sociedade que vivia a degradação de valores, num país ameaçado e exigindo mudanças.


A mitologia no poema de Fernando Pessoa



Segundo a mitologia, Eros era filho de Afrodite e de seu amante Ares. Embora existam outras versões sobre seu pai por parte dos mitógrafos, o que nos importa mesmo é que Eros seja considerado o deus do amor. Conta a lenda que ele se apaixonou por Psique, uma uma jovem princesa. Psique era de uma beleza inigualável, o que causou a ira de Afrodite. O ciúme que sentia pelo filho, somados à inveja que tinha de Psique por sua beleza, fez com que ela sofresse toda espécie de maldade por parte de Afrodite. É muito curioso percebermos que o título do poema de Pessoa nos revela uma relação amorosa proibida, na qual a inveja, a possessividade e o ciúme por vezes impedem duas pessoas de vivenciarem o amor na sua plenitude.

A idiossincrasia gerada pelo preconceito também é uma outra maneira de tentar impedir o amor vivido entre dois seres humanos. E aí encontramos o preconceito racial, social e sexual funcionando como grande barreira da expansão da afetividade.
Não vamos nos ater à discussão sobre preconceito, tema por demais amplo e que fugiria de nosso objeto momentâneo, que o da análise do poema propriamente dito, pois nosso objetivo é analisar a relação do poema de Pessoa como intertexto do título a nos remeter à mitologia.

Encontramos no título do poema uma certa revelação do que encontraremos no corpo do poema. Ao dar o título Eros & Psique ao poema, nos é clara a apropriação do autor do gênero mitológico e temos aqui uma intertextualidade, segundo nos ensina Ingedore V. Koch: “As sequências narrativas apresentam uma sucessão temporal/causal de eventos, ou seja, há sempre um antes e um depois, uma situação inicial e uma situação final, entre as quais ocorre algum tipo de modificação de um estado de coisas.” ( Koch, Ingedore G.Villaça; Intertextualidade – Díalogos Possíveis; p.76). Ao fazermos uma analogia do título Eros e Psique ,que vem da mitologia e narra uma história de amor como a do poema, temos a impressão de que Pessoa nos informa que, apesar do tempo e do espaço mitológicos aparentemente serem tão distantes, em algumas situações são extremamente atuais, pois o amor gera conflitos universais. Daí ser razoável afirmarmos que os temas mitológicos continuam atuais e um belo instrumento de análise dos sentimentos humanos em suas diversas facetas.


Bibliografia


Cavalcante, Mônica C., Bentes, Anna C., Koch; Intertextualidade – Diálogos Possíveis, São Paulo, Cortez , 2008. Grimal, Pierre. Tradução: Victor Jabouille; Dicionáiro de Mitologia Grega e Romana, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2005. Infante, Ulisses e Nicola, José de. Como Ler Fernando Pessoa, São Paulo, Scipione, 1988. Lafetá, José Luiz; A Dimensão da Noite, São Paulo, 34, 2004. Lessa, Ana Cecília e Guimarães, Hélio de Seixas. Figuras de Linguagem – Teoria e Prática, São Paulo, Atual, 1992. Lima, Luiz Costa. O Controle do Imaginário & a Afirmação do Romance, São Paulo, Companhia das Letras, 2009. Morin, Edgar. Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, São Paulo, Cortez, 2011. Mussalim, Fernanda e Bentes, Anna Christina. Introdução à Lingüística, São Paulo, Cortez, 2006. Netto, J. Teixeira Coelho. Semiótica, Informação e Comunicação, São Paulo, Perspectiva, 2010.
Osborne, Harold. Estética e Teoria da Arte, São Paulo, Cultrix, 1993. Pessoa, Fernando. Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Nova Aguillar, 1984. Rovighi, Sofia Vanni. História da Filosofia Contemporânea, São Paulo, Loyola, 2004. Tinoco, Robson Coelho. Leitor Real e Teoria da Recepção – Travessias Contemporâneas, São Paulo, Horizonte, 2010. Todorov, Tzvetan. Estruturalismo e Poética; São Paulo, Cultrix, 1973. Saraiva, Arnaldo. Modernismo Brasileiro e Modernismo Português, Campinas, Unicamp, 2004.

*Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.