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Sobre “Desenhos a lápis” de Oleg Almeida

Carlos Pessoa Rosa

Tenho em mãos o livro ‘Desenhos a lápis’ do escritor e tradutor Oleg Almeida. Qual o desejo do autor, conforme pontua na orelha do livro o também escritor, jornalista e crítico literário, Joaquim Maria Botelho, que não induzir o leitor a ir ao encontro de um esboço, de algo ainda na esfera da impressão, de algo não terminado, se assim o desejarem? Entretanto, o autor não nos leva aos traços de um desenhista ou pintor como o nome quer parecer, não é a mão, em um primeiro momento, quem esboça, mas o olhar estrangeiro, a transformar imagens da cidade de São Paulo em poesia.

No primeiro poema, conclui o poeta: “Só eu não morava nessa cidade: falha imperdoável... Agora moro”. Está no dicionário que morar é o mesmo que habitar. Discordo. Morar me traz mais o sentido de fixar posição, é Chronos; já habitar envolve absorver e ser absorvido pelo entorno, está mais próximo do Caos. Claro que para habitar, necessário morar. Morar para tocar cartografias, camadas, ciente de que aqui ou na Antiguidade os personagens são potências, com sonhos e necessidades intemporais.

Absorver e ser absorvido para a poesia envolve uma amplidão sensorial além das práticas cotidianas dos habitantes locais, anestesiados pelo efeito cumulativo da rotina. Toda cidade oferece roteiros, toda cidade sofre de TOC, toda cidade experimenta a diversidade, é o local onde tudo é apressado, repetitivo, com o mesmo cenário para onde se olhe: aço e cimento - mais as armadilhas para a morte ou modo de morrer. Enfim, a cidade é estruturada por Chronos, na direção da eficiência, diferentemente da estranheza provocada no estrangeiro, quando é Caos quem define o ritual de passagem e de resistência.

Você, morador, já ouviu falar de homem plantado?  Pois mendigos são plantas à espera de alimento e direitos, mas “invisíveis aos servidores da prefeitura que passam sem vê-lo”. Na cidade vivenciada, rostos são como grafites: enigmáticos, fluidos, no aguardo da novela das oito. É a cidade supermercado a céu aberto, cujas prateleiras não vendem compaixão nem amizade.  E não basta morar ou habitar para Ser na cidade: todos vieram de outro lugar – “Você é de onde” –perguntam-me, volta e meia, os curiosos. “De Babilônia” – respondo.

O espaço da cidade é escasso. Seus personagens são levados pelo sentimento de culpa, pelo desejo, pela fome e pelo dinheiro. Tudo é dodecafônico. Na cidade morre-se de todos os modos, sortidas são as possibilidades: suicídio, violência, fome e doença. Mas quem sequer existe, adoece? Para o Ser, a cidade é um projeto fracassado, onde impera a hipocrisia, o jogo, o estelionato e a rotina: “Essa cidade cercou-me de muros e medos, fez que provasse do seu veneno, encheu minha caixa postal de contas e meu celular de mensagens, ambas de igual crueldade”.

Em Sampa os habitantes necessitam do álcool como suporte para seguir adiante, sem saber qual será o tempo para se transformar em presa. No excesso, todas as cidades assemelham-se. Porém, Eu-estrangeiro: “Não sou tão urbano assim, querida: se pensas que essas pedras me acalentam, estás enganada. Digamos, aceito-as por saber que um campo florido hiberna embaixo delas; se não sentisse, às vezes, o cheiro da relva ceifada em plena rua, faria alguma bobagem”.

O poeta está morador, habita as frestas da cidade, mas: “Não, Pauliceia jamais será minha casa... Todavia, meus dedos giraram as maçanetas das suas portas, e meus cabelos ficaram nas pias dos seus albergues, e meus sapatos deixaram rastros inapagáveis em suas ruas. Por esse lado, sou paulistano da gema”.

E tudo se passa como traços, desenhos a lápis, das estranhezas que o poeta habitou.