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Remisson Aniceto: um olhar sensível sobre a condição humana

Angelo Mendes Corrêa*

Os contos e crônicas reunidos neste intenso e sensível Leva-me contigo – A Senhora S & outras histórias , de Remisson Aniceto, revelam-nos um prosador de excepcionais qualidades, porém, antes de tudo, um observador raro da essência e das contradições humanas.
As inquietações da vida estão aqui retratadas por um astuto intérprete da (des)humanidade que tentamos racionalizar, mas nem de longe damos conta, tal nossa pequenez diante da complexidade que é viver.

Leveza e densidade se juntam nas histórias de Remisson Aniceto, arrebatando o leitor desde as primeiras linhas, numa escrita fluente, despojada de qualquer excesso sentimental ou estilístico, o que não o impede de pintar com cores fortes tantas situações pungentes de nosso cotidiano.
Gestado lentamente, “quase a conta-gotas...ou a conta-letras?”, conforme nos revela o autor, logo nas primeiras páginas, temos nas 23 histórias que compõem este volume um narrador inquieto em relação a nossos desajustes sociais (como não nos sensibilizarmos diante da figura humana que dá título a O São- Paulino ou do desabafo contido em O papel fundamental da educação para a política e em A Amazônia padece, para citarmos apenas três exemplos de seu compromisso em refletir sobre seu tempo.

Seja com a poesia e o colorido de O indiozinho que se apagava, a nos possibilitar aquilo que chamo de estágio de encantamento, seja com a narrativa trágica e o suspense de Toc ou, ainda, nas deliciosas e bem-humoradas Rojões e Stand-up no ônibus, temos, nas páginas que seguirão, bela oportunidade de conhecer personagens anônimos, que, no entanto, representam parte do que somos.

Por fim, cremos que em relação a Remisson Aniceto, que com este Leva-me contigo reúne, pela primeira vez, sua produção narrativa em livro, não é descabido associar o que disse mestre Mário de Andrade, numa das cartas que escreveu a Manuel Bandeira: “Se escrevo é primeiro porque amo os homens. Tudo vem disso pra mim. Amo e por isso é que sinto esta vontade de escrever, me importo com os casos dos homens, me importo com os problemas deles e necessidades. Depois escrevo por necessidade pessoal. Tenho vontade de escrever e escrevo. (Isto é pro caso dos versos). Mas mesmo isto psicologicamente pode ser reduzido a um fenômeno de amor, porque ninguém escreve para si mesmo, a não ser um monstro de orgulho. A gente escreve pra ser amado, pra atrair, encantar etc.”

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista.